As Coisas da Terra – Resenha de Tiago Cavaco – Parte 2

2.

O segundo capítulo chama-se “O autor e sua história”. Nele Rigney começa por esclarecer que Deus é feliz na sua triunidade independentemente da existência dos homens. E ainda assim ele cria o mundo de bom grado. Este capítulo tem a ver como ele se relaciona precisamente com o mundo que criou.

“O fato de que Deus criou e sustém tudo através do discurso pressupõe a sua onipresença no mundo que ele criou (pág. 48).” Jonathan Edwards dizia a partir deste fato que não só Deus está em todo o lado, como todo o lado testemunha do seu trabalho. Rigney deixa claro que o mundo testemunha que o autor é Deus e a história pertence-lhe, mencionando a tensão entre a soberania divina e a responsabilidade humana (tensão que a Bíblia não se preocupa em resolver, deixando apenas claro que ambas são verdadeiras).

Ora, Deus é um autor, o mundo é a sua história, e nós somos as suas personagens (N. D. Wilson dizia que nós, estas personagens, somos feitos das palavras de Deus – “we are made of words”). “O fato que o Pai habita no Filho e que o Filho habita no Pai não abole as distinções pessoais entre eles. Similarmente, o facto de as boas intenções de Deus existirem lado a lado, em cima e em baixo das más intenções das suas personagens não abole a distinção fundamental entre elas (pág. 54).” O conceito de perichoresis é aqui fundamental. Temos de evitar o instinto de querer resolver uma verdade bíblica sacrificando outra, abrindo-nos apropriadamente ao paradoxo.

“Se o mundo é uma história, então a presença do mal é fundamentalmente um exemplo de tensão narrativa. Portanto, podemos ver o raciocínio de Deus mais claramente em permitir e ordenar que o mal exista. (…) O mal existe para que o bem possa triunfar (pág. 57).” Este é um valor que aprendemos até porque Deus se chama Yahweh, aquele que causa todas as coisas que são, ou o causador de todas as coisas.

Por outro lado, nós podemos conhecer Deus não só porque ele é o autor da história mas porque, ao mesmo tempo, ele se revela nessa mesma história como uma personagem. “Deus-como-autor e Deus-como-personagem significa que podemos olhar para a relação de Deus com o mundo de modos complementares (pág. 59).” E a encarnação qualifica esta realidade, expondo que Deus não é apenas uma personagem mas uma personagem humana através de Jesus.

3.

O terceiro capítulo chama-se “Criação como comunicação”. O fato de Deus ser triuno é o que traz coerência e progresso à criação. “O amor de Deus por Deus levou-o a criar o mundo a partir de nada. (…) O amor de Deus por Deus empurra-o à criação (pág. 62).” Porque Deus se revela através da criação, tudo na criação comunica esse fato. A criação torna então visíveis realidades que são naturalmente invisíveis. E as Escrituras em particular são como que os textos de gramática dessa linguagem de Deus, ensinando-nos nos padrões de significado que nos permitirão entender todo o resto no mundo (daí a importância dos conceitos de tipologia e metáfora no cristianismo – “a analogia e a metáfora, quer nas Escrituras quer no mundo natural, são as maneiras principais com que Deus escolheu revelar-se a nós”). É preciso olhar para ao mesmo tempo que se olha através.

Deus dá-se a si mesmo na criação e, num certo sentido, ele também é através das coisas que faz (atenção a saber distinguir isto do panteísmo!). Torna-se incontornável o modo como experimentamos as coisas criadas. A gratidão exprime a bondade de Deus criar uma coisa que me é agradável, a adoração exprime a qualidade do Deus que cria as coisas que me são agradáveis. A criação não só contém uma mensagem como é uma mensagem – um convite de sermos envolvidos na vida divina dentro do Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo.

“Por que é que Deus fez o mel tão doce e saboroso? Para que pudéssemos ter uma ideia do que a sabedoria é (pág. 71)”, recordando Provérbios 24:13-14. Isto não nos leva a fazer um curto-circuito à experiência objetiva de nos lambuzarmos com mel mas a entender o sentido espiritual no processo de o provarmos. Esta lógica é levada ao seu expoente recordando a encarnação de Jesus.  E, por outro lado, “a encarnação – a plenitude da divindade habitando fisicamente a pessoa de Jesus de Nazaré – acorda-nos para a realidade da “descarnação”, a presença viva e ativa do Deus triuno, silencioso mas soando em todos os cantos do cosmos (pág. 75).

 

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