As Coisas da Terra – Resenha de Tiago Cavaco – Parte 3

4.

O quarto capítulo chama-se “Criado para ser criatura” e quer responder à questão do que significa ser uma criatura, sobretudo ser uma criatura feita á imagem de Deus. Deus, perante um mundo de matéria (árvores, bichos, mar e terra) tem uma reação extremamente positiva: “isto é bom!” Significa que um mundo de matéria é um mundo também espiritual. Deus não é o oposto da matéria – foi ele que a criou. O seu objetivo não foi criar almas separadas de um corpo – essa separação é estranha ao projeto inicial (e resultado do pecado). Concluímos que a nossa temporalidade, limitação e finitude não são defeitos a ultrapassar, até porque foram desenhados antes do pecado ser abraçado por nós (não são efeitos do pecado porque foram prévios a o termos cometido). O fato de habitarmos um espaço e um tempo são características que pretendem demonstrar a glória de Deus.

Já a solidão de Adão é apresentada como um defeito (não era bom que ele estivesse só) e Deus comporta-se de acordo com a sua vontade de corrigir isso. Deus age com conformidade com a nossa necessidade. “Deus desenhou-nos de modo que ele viesse ao encontro das nossas necessidades através de outras pessoas (pág. 82)” – logo, Adão acorda perdendo uma costela mas ganhando uma companheira (Adão fica de tal maneira que escreve uma ode louvando essa nova companhia, o que não significa uma idolatria porque ele reconhece a mulher como um favor de Deus).

A vocação do homem corresponde a um papel triplo de sacerdote (que guarda o santuário e cuida dele trabalhando), rei (exercendo domínio sobre a criação como mordomo que se preocupa por manter a casa a funcionar de acordo com o planejado pelo grande proprietário que é Deus) e profeta (dando nomes às coisas através de uma obediência a Deus e conhecimento dele, juntando-se a ele na construção na cidade-templo). Os seres humanos têm um valor derivativo (na medida que a vida que têm lhes é dada por Deus) e inerente (na medida em que, quando Deus dá uma coisa, realmente a dá).

Deus valoriza as coisas de acordo como elas devem ser apreciadas e amadas. Isso leva-nos a um princípio de apreciação proporcional: não podemos afastar-nos das coisas criadas (como a nossa família, por exemplo) para minimizar o nosso prazer no mundo em nome da santidade. Não podemos estabelecer exclusivamente um amor por Deus ou um amor pela criação. Como criaturas nunca fazemos nada infinitamente – somos limitados e finitos. Amar Deus infinitamente é então naturalmente impossível para nós e por isso não podemos culpar-nos de uma coisa que nos é inacessível (um standard falso de santidade é um legalismo e por isso pecaminoso). Mas, como criaturas, podemos amar Deus suprema e totalmente, colocando-o no centro dos nossos afetos. E o nosso afeto por Deus pode ser progressivo, estando em expansão constante. “A única maneira de uma criatura finita preencher algum tipo de obrigação infinita é preenchê-la plenamente permanentemente (pág. 92).”

“O padrão da nossa união com Deus é a união pericorética do Pai com o Filho (o Pai está no Filho e o Filho está no Pai). De fato, o objetivo é que nós estejamos neles do mesmo modo – o Filho em nós e o Pai no Filho – e que esta união aumente até que seja perfeita (pág. 94).”

5.

O quinto capítulo chama-se “A solução evangélica da idolatria” e quer tratar da questão de como nos devemos relacionar com os dons de Deus. “Quando amamos Deus suprema e plenamente, somos capazes de integrar a nossa alegria em Deus e a alegria nos seus dons, recebendo os dons como dardos da sua glória (pág. 99).”

Há um teste comparativo que frequentemente toma a forma de auto-negação ou sofrimento – nele somos examinados acerca de onde fica o nosso verdadeiro tesouro. Colocarmos a nossa mente nas coisas que são cá de baixo é elevar os dons acima do doador, dirigindo a nossa vida por outros valores que não o Deus triuno. O que aqui não se procura é uma dicotomia, uma vez que a pessoa concentrada nas coisas celestes é profundamente da terra, só que orientada pela glória de Cristo – é assim que podemos partir do amor que temos a Cristo para a valorização das coisas que são daqui. Com Deus estabelecido no nosso coração, a nossa mente aplica-se (logizomai) naquilo que é verdadeiro, honroso e puro que está a nossa volta nesta terra.

A idolatria começa com uma separação imposta e fajuta entre Criador e criação. Em vez de compararmos os dois para avaliarmos os nossos afetos, acabamos a afastá-los para redundar em louvor impróprio. Como C. S. Lewis dizia, se colocarmos as primeiras coisas em primeiro lugar, temos também as segundas. Se colocarmos as segundas coisas em primeiro lugar, perdemos ambas. A loucura da idolatria é arruinar a alegria nos dons de Deus por colocá-los no lugar dele.

A ingratidão é outro grande pecado associado a esta questão, na medida que também desenha uma má relação com os dons de Deus, recusando-nos nós a agradecer pela generosidade divina conosco. O pior que nos pode acontecer é precisamente Deus dispôr-nos àquilo que nós desejamos (o que Romanos 1 explica).

Tendo em conta a persistência da idolatria no nosso coração, uma das tentações é desvalorizar a criação para não correr riscos de nos enamorarmos dela. Esta manobra ascética pode parecer sábia mas acaba por ser uma ingratidão e colocar o pecado nas coisas e não no sítio onde Jesus o situou: no nosso coração. Por isso Paulo dizia que rejeitar comidas em nome da santidade era truque demoníaco (e um insulto ao Criador, frisava Calvino). Aliás, este estratagema foi precisamente aquela que Satanás usou no Éden sugerindo a Eva que Deus tinha proibido que se comesse qualquer fruto (Génesis 3:1). “Na boca da Serpente, Deus não é um pai mas um proibidor, um desmancha-prazeres cósmico que cria prazeres e depois impede que eles sejam gozados (pág. 108).”

O risco é o desenvolvimento de uma falsa culpa, que hoje aparece curiosamente mascarada de decisões de vida saudável (não comendo alimentos que não sejam tido como corretos) mas que nos remete para o monasticismo como única via de vida cristã. Ironicamente não saímos cristãos mais próximos de Deus a partir deste ascetismo moderno, mas pessoas mais perto das tentações bem-aparentadas de Satanás. Quando o problema se colocava na Bíblia de um modo prático, como entre os Coríntios perante a questão da ingestão das carnes sacrificadas aos ídolos, o que Paulo sugere são duas hipóteses de, em circunstâncias específicas, não aproveitarmos os dons da criação de Deus por uma preocupação pela integridade da consciência do “irmão mais fraco” e por um amor sincero e sacrificial por ele.

Como é que o evangelho responde aos desafios da criação, tendo em conta o fato de sermos criaturas pecadoras com muita facilidade em criarmos ídolos? 1) A encarnação de Cristo é o maior patrocínio à bondade da criação e à capacidade que ela tem de ser amplificada, transformada e glorificada. “Jesus não veio para nos livrar da existência terrena (pág. 111).” 2) Jesus triunfa onde Adão fracassa. 3) Na cruz Deus trata de toda a idolatria e ingratidão (permitindo que gozemos da criação para a glória de Deus através do que aconteceu no Calvário). 4) A ressurreição é a transformação da carne como ela deverá permanecer na eternidade perfeita. 5) Por causa da ressurreição e ascensão serem realidades físicas, não apenas a criação é uma coisa boa como pode ser glorificada “O físico é agora profunda e irrevogavelmente espiritual (pág. 113).” 6) Quando nascemos de novo ganhamos olhos para ver na criação a glória divina. 7) A nossa esperança última não é uma vida futura descarnada e imaterial. “Claro que há lugar para a renúncia, mas o objetivo do evangelho é a restauração de todo o ser humano, incluindo o nosso envolvimento com Deus e com os seus dons espantosos (pág. 114).”

 

O Livro “As Coisas da Terra” já está disponível.