As Coisas da Terra – Resenha de Tiago Cavaco – Parte 4

6.

O sexto capítulo chama-se “Os ritmos da piedade” e trata da questão de como devemos viver na prática uma existência orientada para Deus e que afirma a bondade da sua criação. Trata-se de aplicar 1 Coríntios 10:31: “Quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus.” Este movimento em direção a Deus é o que permite que os nossos pensamentos, afetos e ações culminem nele.

Somos criaturas que, ao contrário de Deus, não transcendemos o tempo e assim permaneceremos, o que não impede que nos relacionemos com Deus e que nesse relacionamento tenhamos a nossa existência glorificada. Deus institui um ritmo constituído por seis dias de trabalho e um dia de descanso que é o padrão do nosso florescimento. Isto significa que o Criador aprova a nossa existência temporal modulando compassos de trabalho e descanso – e isto é bom!

Joe Rigney distingue dois tipo de “orientação para Deus” (Godwardness): uma direta e outra indireta. A primeira envolve o nosso foco consciente e intencional no próprio Deus (através de atividades como a oração, a leitura da Palavra, o culto, e outras que significam devoção simples). A segunda envolve um foco subconsciente em Deus enquanto nos empenhamos no mundo que ele criou (e pode ser qualquer atividade desde comer uma refeição a jogar futebol). Como é que estes dois tipos de “orientação para Deus” se relacionam? Rigney sugere que devemos estruturar as nossas vidas a partir de um ritmo regular de uma “orientação para Deus” direta e uma “orientação para Deus” indireta. “O objetivo da glória de Deus não pode ser distinta e sensivelmente operado em todos os prazeres (presumivelmente por causa das nossas finitude e limitações). Distrair-nos-ia de receber tudo o que Deus tem para nós dentro dos prazeres. Em vez disso, estabelecemos uma intenção profunda no nosso coração (através da “orientação para Deus” direta), e então a intenção habitual ordena os nossos afetos e desejos para que corretamente usemos e gozemos aquilo que Deus nos oferecer. (pág. 124).“ Teremos ocasião para jejum e para jantares, como oportunidades distintas mas que comungam do objetivo de nos aproximar de Deus. Às vezes tomamos muito, às vezes tomamos nada – numa mesma ética de comunhão com o Criador.

Uma “orientação para Deus” indireta e um aproveitamento dos dons de Deus aumenta a nossa “orientação para Deus” direta criando novas categorias mentais, emocionais e espirituais para o nosso prazer em Deus. Assim, Deus torna-se menos vago e abstrato nas nossas mentes. O louvor a Deus perde qualidade quando nos afastamos dos dons de Deus e nos desligamos da sua criação.

Uma “orientação para Deus” direta aumenta o nosso aproveitamento das estações de “orientação para Deus” indireta, fazendo com que a nossa devoção (o louvor, a oração, a leitura da Palavra) ancore a nossa alma e a forme, operação visível no modo como nos relacionamos com o mundo e com as pessoas. Uma perspectiva clara de Jesus torna as coisas do mundo mais visíveis e prazerosas.

Focando-nos no Deus triuno (numa “orientação para Deus” direta) olhamos para tudo o resto que nos cerca (“orientação para Deus” indireta). De regresso, mesmo quando olhar para Deus não é o objetivo primordial, ele nunca sai do meu horizonte. Entramos nas nossas tarefas do dia-a-dia acordados para Deus e, por isso, despertos para as maravilhas do mundo que ele criou (oramos antes das refeições, e comemo-las de bom grado!). A qualidade das nossas vidas virá deste sentido de plenitude entre o que é físico e o que é espiritual, e que se observa nos ritmos quotidianos da “orientação para Deus”.

7.

O sétimo capítulo chama-se “Nomeando o mundo” e trata da questão da cultura, de nos relacionarmos não tanto com o que Deus fez na criação mas de nos relacionarmos com aquilo que fazemos da criação de Deus. Isto não quer dizer que é sempre fácil distinguir criação de cultura.

No mandato cultural (Génesis 1:28) Deus patrocina que desenvolvamos os recursos naturais da terra através da ciência e tecnologia. A cultura é, nesse sentido, um cultivo, um desenvolvimento daquilo que Deus fez, como que adornando o mundo (Criação + Esforços Criativos Humanos = Cultura). Definimos a cultura também reconhecendo os limites que Deus impôs à criação. Existe o “princípio da realidade” (ou “princípio realista”) – Deus deu-nos um mundo concreto e inescapável, e o “princípio criativo” – Deus quer que contribuamos, sendo feitos à imagem dele, para a transformação do mundo. O movimento da criação do mundo vai do bom para o muito bom e a nossa participação no processo sublinha essa melhoria gradual, recordando também que isso pede o nosso esforço para que possamos dominar sobre o mundo no qual fomos colocados como mordomos. “O objetivo de Deus é que a sua criação muito boa seja santificada e que esta santificação aconteça através da atividade dos seres humanos (pág. 141).”

A nossa criatividade deve ser fundamentalmente receptiva a Deus e grata a ele. O louvor surge assim como o culminar da nossa atividade criativa. Só assim podemos responder à nossa vocação progressiva de sacerdotes (cuidando do templo), reis (governando a casa de Deus) e profetas (aplicando a lei de Deus enquanto participantes no conselho divino).

A missão de cultivo que nos é dada passa necessariamente por dar nomes. Nomear as coisas é invocar aquilo que está à superfície requerendo a criatividade e imaginação proféticas (mais amadurecida que a dos sacerdotes e reis) para aplicar a Palavra de Deus às novas experiências. Quando Adão nomeia as coisas ele vê as coisas a que está a dar nome ao mesmo tempo que vê mais além disso. Nesse sentido, dar nome é um modo de progredir reconhecendo o que Deus já fez e vai continuar a fazer. Dar nomes é adequar-nos à dinâmica progressiva de Deus visível na criação. “Nomear envolve a recepção dos atos de Deus (contemplando e considerando o que Deus fez), bem como o desenvolvimento dos atos de Deus (pág. 145). A nomeação humana é de fato o modo de Deus desenvolver (subjugando) a criação, enlistando o homem como colaborador no trabalho de trazer o mundo de um grau de glória para outro.”

Nomear é reconhecer e abraçar a realidade de que não conseguimos viver fora da linguagem. Afinal, se Deus criou as coisas através do discurso, nós progredimos aprendendo a falar a linguagem da criação, registrando o fio condutor de sacerdotes (que são os ouvidos) para reis (que são os olhos) e de reis para profetas (que são as bocas).

Construir uma cultura é um dos modos essenciais de participarmos da natureza triuna de Deus, colaborando através do mandato cultural na tarefa de encher o mundo da glória de Deus. A Ceia do Senhor lembra isto mesmo, trazendo elementos que vindo da natureza – o pão e o vinho, são transformados pela nossa atividade. Na Ceia do Senhor respondemos a um convite divino de nos juntarmos à missão de transformar o mundo. O elemento da transfiguração aparece porque o nosso trabalho é o que permite passar do centeio para o pão, e da uva para o vinho. É uma refeição ritual que sublinha a união entre a criação de Deus e a criatividade e trabalho dos homens.

Coloca-se então a questão da existência do mal. 1) A existência do mal não impede o nosso prazer na criação. 2) A existência do mal é pedagógica por contraste com o que é bom. 3) Deus comunica coisas boas através de coisas más do mundo. 4) Temos reações emocionais complexas à criação e à cultura (que provam a nossa capacidade de lidar com o mal). 5) Há uma diferença entre distinguir o que é mau e deliciarmo-nos no que é mau. 6) A existência do mal nos objetos culturais permite-nos crescer em obediência bíblica, aborrecendo esse mal. 7) Devemos reconhecer que o nosso envolvimento cultural pode servir de pretexto para nos dedicarmos ao mal representado na cultura.

 

O livro “As Coisas da Terra” está disponível!