As Coisas da Terra – Resenha de Tiago Cavaco – Parte 5

8.

O capítulo 8 chama-se “Desejando o que não é Deus” e centra-se em experiências pessoais de Joe Rigney. Nessas experiências Joe Rigney descreve cenas da sua vida que ilustram as “coisas da terra”. As emoções descritas passam por alegria ou tristeza.

“Não sintas que precisas de adicionar um verso bíblico a cada um dos teus prazeres. Não devias sentir-te culpado se não consegues prontamente identificar o atributo específico de Deus que é comunicado no gozo de alguma coisa.” Com isto é preciso termos em conta o modo como a realidade tem camadas.

Ver a realidade como uma comunicação de Deus ajuda-nos a perseguir a santidade porque nos recorda que, em princípio, todas as coisas nos estão a transmitir algo sobre Deus. E, por causa disso, sabemos que todas as coisas que experimentamos transmitem, a partir de nós, algo sobre Deus também.

9.

O capítulo 9 chama-se “Sacrifício, abnegação e generosidade”. Trata de saber como celebrar os dons de Deus não sabota a tarefa de fazer missões. Isto porque o cristianismo chama a um espírito de sacrifício e auto-negação para que a fé possa atingir muitos mais. Como é que saborear Deus em tudo e tudo em Deus desenvolve um compromisso de o levar aos povos que não o conhecem?

Primeiro, a chamada a gozarmos os dons de Deus leva-nos a querer obedecer à Grande Comissão. Para que os povos amem Deus precisam também de o ver claramente nas coisas que ele criou. Ou seja, para que os missionários sejam competentes têm de ser pessoas que saboreiam Deus em todas as coisas. Deliciarmo-nos na beleza da criação de Deus é um elemento catequético obrigatório e não opcional.

Em segundo lugar, sempre que levamos o evangelho ao mundo caído, confrontamos as pessoas com o fato de terem trocado o Criador pela criação, com todos os resultados idólatras que daqui saem. Ou seja, o testemunho cristão obriga a que consequentemente haja um exemplo ordenado de celebração dos dons de Deus. Um missionário não é mais eficaz por se mostrar alheio às coisas boas deste mundo. Um missionário é mais eficaz por se mostrar grato pelas coisas boas deste mundo e, inerentemente, demonstrar também, por oposição, a condenação daquelas que são más.

Vamos saber como se harmoniza o prazer nos dons de Deus com a auto-negação pressuposta a qualquer discípulo de Cristo. “A auto-negação cristã é sempre a renúncia de uma alegria legítima menor por uma maior. É renunciar alguma coisa boa por alguma coisa melhor (pág. 179).” Por isso:

1) a auto-negação é uma parte da santificação mas é diferente da mortificação do pecado. A auto-negação não é o abandono do pecado mas é o abandono de alguma coisa boa por alguma coisa melhor.

2) “Os cristãos celebram a criação porque ela foi feita por Deus. Mas os cristãos também tratam a criação, num certo sentido, com leveza porque ela não é Deus (pág. 180).” Isto faz parte de um caráter paradoxal da fé cristã.

3) A auto-negação é uma das formas mais concretas de estabelecer a supremacia de Deus sobre as nossas vidas.

4) A auto-negação é uma espécie de morte. E quando experimentamos a auto-negação, ligamo-la à morte e à vida e, nessa ligação percebemos melhor a morte e a ressurreição de Cristo. A auto-negação é um exercício de semelhança a Cristo.

5) No evangelho a auto-negação é sempre acompanhada de desavergonhadas promessas de recompensa. Os cristãos não podem ter vergonha de afirmar isto. Neste sentido, negarmo-nos a nós próprios não é o produto final: o produto final é sermos recompensados por Deus alcançando comunhão com ele. A auto-negação é sempre um passo intermédio de subtração para no fim termos a melhor soma de todas que é a nossa união com Cristo.

6) A auto-negação é sempre um gesto de gratidão.

A auto-negação celebra a bondade das coisas de que abdicamos. “Acentua o valor comparativo de Deus sobre todos os seus dons (pág. 184).”

Joe Rigney afirma ainda três coisas sobre o exercício prático de vivermos a auto-negação num mundo de coisas boas. 1) Na Bíblia prosperidade ou riqueza é mais do que dinheiro. 2) A prosperidade é uma coisa boa na Bíblia. É um sinal de bênção vinda de Deus. 3) Mas na Bíblia a prosperidade também é uma coisa perigosa. Como qualquer outra coisa boa que se coloque no lugar de Deus, a prosperidade pode tornar-se uma idolatria. E a Bíblia é clara ao dizer que a prosperidade pode mesmo impedir-nos de entrar no Céu. Comparada com outras coisas, há muitos mais avisos da Bíblia acerca deste risco em particular.

Na Bíblia a prosperidade serve para reconhecermos que recebemos algo bom de Deus. Mas forçosamente leva-nos sempre a um segundo passo onde devemos dar desse algo bom que recebemos de Deus. O esquema é: recebemos em gratidão, damos em gratidão. Quanto mais um cristão enriquece, mais ele quer livrar-se dessa riqueza partilhando-a com outros. A prosperidade torna-se uma oportunidade única para abençoarmos a vida dos outros. A prosperidade torna-se um braço missionário óbvio. As quantidades podendo variar, refletem sempre que a qualidade não varia (dar é parte fundamental de receber).

Não podemos dar a partir da culpa de termos. Se damos a partir da culpa que sentimos por ter, daremos apenas a partir do ponto onde a culpa seja suportável.

“O resultado da generosidade não é apenas irmos ao encontro das necessidades das pessoas mas uma gratidão transbordante em direção a Deus (pág. 196).”

 

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