As Coisas da Terra – Resenha de Tiago Cavaco – Parte 6

10.

O Capítulo 10 chama-se “Quando o “tempo de guerra” dá errado” e vale a pena contextualizar explicando que a expressão “economia de tempo de guerra” é a usada como uma recomendação de John Piper para como os cristãos devem viver as suas finanças. Diz ele: “Jesus pressiona-nos para um estilo de vida de tempo guerra que não valoriza a simplicidade pela simplicidade, mas que valoriza a austeridade do tempo de guerra por aquilo que ela consegue produzir pela causa da evangelização do mundo.” Joe Rigney parte daqui para partilhar aspectos da sua própria experiência.

Joe Rigney diz que é possível abraçar um estilo de vida de economia de tempo de guerra, pensando numa generosidade estratégica e, ainda assim, terminar sabotando essa mesma intenção. Para isso, Rigney encoraja atitudes que devemos abraçar tendo em conta o contexto privilegiado do nosso tempo e lugar. Todas essas atitudes começam na gratidão. 1) Paulo encoraja-nos a ser agradecidos por tudo. 2) É um pecado não ser grato pelo contexto onde nascemos (seja ele qual for) uma vez que a decisão soberana pertence sempre a Deus. “Um dos maiores desafios para os Cristãos do Ocidente é aprender a encarar a nossa abundância sem precedentes com a força fornecida por Cristo e não pela riqueza (pág. 202).” Receber as coisas boas como deve ser dá trabalho e requer graça.

Rigney teve a experiência de fazer um estilo de vida de economia de tempo de guerra com o coração errado. Diz ele que é fácil prescindir de coisas que não valorizamos e, a partir daí, produzirmos arrogância espiritual. No fundo, era um caso de ser sovina sob a aparência de estratégia espiritual. A estratégia da economia de tempo de guerra para o cristão tem de se saldar em resultados espirituais. Isto quer dizer que poupo não para provar que consigo viver sem alguma coisa, mas para provar que contribuo para que outros vivam com mais, neste caso, com o evangelho. Viver com uma economia de tempo de guerra é acerca de viver para o mais, e não de viver para o menos.

Em termos práticos, é fundamental termos a família próxima como aqueles que estão connosco na frente da batalha. Sermos unhas de vaca com a nossa família é desprezarmos o papel essencial de a nutrirmos como parceiros de luta. Um marido cresce em generosidade para com a sua mulher proporcionalmente à sua sensibilidade missionária. Os círculos prioritários desenham-se da família para a igreja, posteriormente para os pobres e incrédulos da nossa zona, e daí para os povos de todo o mundo.

Quando pensamos em termos estratégicos para a nossa capacidade de abençoar outros materialmente, há uma dimensão estética a aplicar. “O embelezamento é estratégico (pág. 211).” A beleza é um transmissor do evangelho, mesmo tendo em conta a beleza passageira das coisas que se corrompem. Rigney partilha ainda o modo como pôde aprender mais sobre a ciência econômica e como essa aprendizagem tornou mais espiritual o entendimento da generosidade cristã. Não havendo almoços grátis, deve ser adereçada uma complexidade na vivência fiel num mundo de prosperidade. Viver em economia de tempo de guerra é tão perigoso quanto necessário. Vivamo-la conscientes e vigilantes.

11.

O capítulo 11 chama-se “Sofrimento, morte e a perda das boas dádivas”. Trata de perguntar se não caímos em idolatria quando choramos a perda de coisas boas. Devemos abraçar a nossa finitude e substituir a nossa segurança própria por uma dependência radical de Deus. A partir do fato de Deus ser bom, podemos sentir-nos felizes nos dons que Deus nos oferece, sejam eles comida ou bebida. A bondade primordial que permanece não é aquela que começa com os dons, mas aquela que foi iniciada dentro do próprio Criador.

O fato de sabermos que podemos perder coisas boas não nos deve levar a não as saborearmos. O que está em causa é relacionarmo-nos com Deus de uma maneira que ele é honrado quando temos coisas boas vindas das suas mãos, e relacionarmo-nos com Deus de uma maneira que ele é honrado quando ele nos tira essas coisas boas. Logo, quando vivemos o segundo momento, a maneira como ordenamos os prazeres é testada. É quando Deus nos tira as coisas boas que nos deu que sabemos, no fim de contas, se o valorizamos acima dessas mesmas coisas. O sofrimento causado pela perda das coisas boas é o teste dos testes acerca da idolatria do nosso coração. Esse é o exemplo que aprendemos com a história de Jó. “O sofrimento prova nosso supremo amor por Deus mais do que qualquer outra coisa pág. 220).”

Rigney chama-nos à relação integrada entre Criador e as suas dádivas. Essa integração continua mesmo quando perdemos as dádivas. Quanto melhor vivemos integrada a relação entre Criador e as suas dádivas, mais o nosso coração se expande. E o nosso coração expande-se nos dois sentidos: viveremos a aproveitar mais e melhor as dádivas e, sobretudo, viveremos a aproveitar mais e melhor o doador que é o Criador. Na realidade, quanto mais saborearmos as dádivas mais saborearemos o doador. Não será uma relação de um contra o outro mas, pelo contrário, uma relação de um contribuir para o outro. Mais: o coração expadir-se-á de uma maneira tal que saberá viver com a presença das dádivas mas, vejamos bem!, saberá viver com a ausência delas também. Porque o doador é o bem maior, bem esse que não fica comprometido quando as dádivas desaparecem.

Esta alegria integrada não perde tempo com o estoicismo. Não louvamos Deus quando suprimimos a tristeza dentro do nosso coração pelo desaparecimento das suas dádivas. Não deixamos Deus alegre quando fingimos que não ficamos tristes por nos ter tirado as coisas que nos deu. A alegria integrada poupa-nos da falsa culpa que é encenar desapego às coisas que Deus nos deu, sob o pretexto de assim não cometermos idolatria. A tristeza bíblica não é, nesse sentido, desapegada. Ela chora a sério. Mas nesse choro nunca se volta contra Deus. Isto porque nunca esquece a gratidão, qualidade que honra Deus quando ele nos dá e quando ele nos tira. “A gratidão ama demonstrar o valor do doador das boas dádivas e das severas misericórdias (pág. 225).” Os cristão não são masoquistas.

Perante as grandes dores, a alegria integrada prefere partir e estar com Cristo porque esse é o estado da maior qualidade possível. Morrer torna-se não uma desistência mas a melhor soma possível (“estar no céu com Jesus sem um corpo físico é melhormp que estar na terra caída com um corpo que se corroe, mesmo que com o Espírito habitando em nós (pág. 226)”). Mas acrescentemos que, ainda assim, a esperança de Paulo transcende isto – Deus prepara para nós um futuro de corpo e espírito, transformado pelo mesmo poder que proporcionou a ressurreição de Cristo. É seguindo esta linha de raciocínio que podemos saber que, “quando dizemos adeus às delícias terrestres na nossa morte, na realidade apenas lhes dizemos «até logo!» (pág. 227).” O que a morte subtrai, a ressurreição multiplica. O nosso futuro será muito melhor que a nossa imaginação consegue pensar.

Atenção que isto não é colocar as bênçãos acima do abençoador. Só poderemos aproveitar as dádivas na medida em que reconhecemos nelas a presença de Cristo. “Desejar um céu sem Cristo é cometer uma forma sutil e suicida de idolatria, uma que não nos encomendará a Deus no último dia (pág. 228).” Deus estará presente e revelando-se através de todas as realidades criadas e renovadas que experimentaremos. A alegria integrada que aprenderemos aqui será a alegria integrada que viveremos lá.

12.

O capítulo 12 (e último) chama-se “Abrace sua condição de criatura” e reafirma a tese central do livro: não temos de escolher entre o amor a Deus e o amor às suas dádivas, e isto confirma-se sobretudo quando as perdemos ou abdicamos delas por ele. A nossa alegria última será a presença de Deus e o recebimento integrado e consequente das bênçãos que ele nos dá. Abraçar a nossa qualidade de criaturas passa pela receptividade. Deus, que é essencialmente um doador, fato observado pela realidade trinitária, pede que nós sejamos essencialmente receptores. Daí a Escritura perguntar o que temos que não nos tenha sido dado (1 Coríntios 4:7). A experiência mais básica à humanidade que Deus planejou para nós, é receber o que Deus dá e nesse processo conhecermos o doador, deliciando-nos nele.

Querer ser Deus é uma asneira quando ser uma criatura é a condição que me permite conhecê-lo e ter nele o prazer maior da minha existência. Os limites que existem no fato de sermos criaturas são o que viabiliza sermos personagens na história que, englobando-nos, é fundamentalmente acerca de Deus. A personagem que somos é chamada a ser como ele é: generosa, doadora, extravagante. A gratidão é a resposta adequada à abundância das dádivas.

Tudo o que temos é Cristo,

1) quer o tenhamos em todas as boas dádivas que ele nos dá,

2) quer o tenhamos em todas as boas dádivas que recebemos e livremente as oferecemos na causa do seu amor,

3) ou quer o tenhamos apenas a ele na perda de todas as outras coisas que nos são preciosas.

 

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