Janeiro 05, 2018


O ídolo da Justiça?

 Cerca de doze anos atrás, eu estava no campus da Universidade de San Francisco como participante do "Western Conversations in Jesuit Higher Education" - um encontro anual de universidades jesuítas do oeste do Mississipi, que se devota em explorar as questões sobre missão e identidade. Entretanto, um Protestante evangélico - eu estava, à época, lecionando na Universidade Loyola Moarymount, em Los Angeles - foi recrutado para ser parte da equipe que iria lidar com as questões do ensino das artes liberais na tradição Católica.

 Isso se tornou um momento oportuno para nós estarmos na Universidade de São Francisco, uma vez que eles estavam lançando uma nova declaração de missão naquela mesma semana. Então, aqui estávamos nós, professores de universidades jesuítas, discutindo a missão da educação Católica Jesuíta, hospedados por uma universidade Jesuíta, lançando uma nova articulação da sua própria missão. Isso era um estudo de caso se desenrolando bem debaixo de nossos narizes.

 Entretanto, não levou muito tempo para que algum de nós percebêssemos algo: a declaração de missão aparentava ter um curioso ponto cego. Era uma longa conversa sobre justiça, diversidade e serviço, mas a palavra "Deus" não aparecia em lugar algum do documento. "Jesus" nunca apareceu na missão dessa universidade Jesuíta. (Esse é o tipo de coisa que levou meu amigo, um Católico Romano devoto, a ironizar: "eu gosto de ensinar na universidade Jesuíta.  Mas eu adoraria ensinar em uma universidade Católica!").

 Pela maior parte do tempo, eu pensei como se isso fosse problema "deles" - apenas mais um indicador da secularização do ensino superior Católico na América do Norte. Mas, desde então, eu percebi que isso é um problema nosso. De forma estranha, e muitas vezes de formas inesperadas, a busca por "justiça", shalom, e um evangelho holístico pode ter o próprio efeito da secularização. O que começa como uma preocupação de um Evangelho-motivado pode se tornar uma fixação naturalista em uma justiça na qual Deus nunca aparece. E quando isso acontece, "justiça" se torna algo completamente diferente: um ídolo, um caminho para efetivamente naturalizar o Evangelho, comprimindo-o a um projeto de melhoria social no qual as particularidades de Jesus, como a revelação de Deus, se tornam estranhamente ausentes.

 Dada a recente valorização da justiça e do shalom nos meios evangélicos, faremos bem em ver essas trajetórias como um conto de precaução, como a visitação do espírito do natal do futuro nos mostrando onde nós podemos parar.

Se com isso parece que estou apontando meu dedo para os outros, então há mais três apontados de volta para mim. Na verdade, considere essa (outra) carta para o meu "eu" mais novo. Como um ex-fundamentalista, foram os herdeiros de Abraham Kuyper que me ensinaram a visão bíblica de um Evangelho holístico. Mas depois eu percebi que se nós não nos atentarmos para todo o Kuyper, por assim dizer, se escolhermos apenas partes do projeto Kuyperiano, nós poderemos terminar com uma estranha monstruosidade: o que nós podemos chamar, paradoxalmente, de "secularismo Kuyperiano", que naturaliza o shalom.

 Um conto de precaução

 Antes de eu contar minha própria incursão no secularismo Kuyperiano, deixe-me prover um pouco de contexto. Eu acabei por ver a minha história inserida em uma outra muito maior, uma história anterior contada por Charles Taylor, que está em seu enorme livro "Uma era secular". Você deve pensar isso como um conto sobre o efeito Frankenstein da Reforma Protestante.

 Como Taylor sabiamente colocou, uma das mudanças de mundo resultantes da Reforma foi a "santificação da vida cotidiana". Isso era uma negação do Cristianismo de dois níveis do final da era medieval, o qual exaltava padres e monges e tratava os açougueiro, os padeiros e os produtores de castiçais como se eles fossem uma mera segunda classe de cidadãos do reino de Deus. “Nein!”, gritaram  os reformadores em resposta. Se toda a vida é vivida Coram Deo, perante a face de Deus, então, todas as vocações são santas. Tudo pode e deve ser feito para a glória de Deus (1 Cor. 10.31) e como expressão de gratidão a Deus (Col. 3.17). Para resumir: não haverá uma polegada quadrada em toda a criação sobre a qual Cristo não diga "meu!".

 Isso também transforma como nós pensamos a salvação, redenção e restauração. Dessa forma, Deus não está apenas interessado no "resgate da alma", salvando almas do mundo. Ele está redimindo o mundo. Jesus anuncia um reino que é caracterizado por justiça: para o pobre, para o oprimido, para o vulnerável, para todos. O escopo da salvação de Deus inclui o material; Cristo não redime somente as almas, ele endireita o mundo. Esse é o porquê de Jesus curar corpos e alimentar multidões. E, na medida em que a justiça - shalom - é preocupação de Deus, ela também deve ser nossa. Cristãos devem ser do mundo, no melhor sentido da palavra: participando da renovação e redenção que Deus tem feito neste mundo, e, por consequência, seguir a causa da justiça.

 Entretanto, Taylor aponta algo indesejável, a "Frankenstenização" teve como resultado o seguinte: por desencadear um novo interesse e investimento na justiça deste mundo, a Reforma também desencadeou a possibilidade de nos esquecermos do céu. Por rejeitar o dualismo do Cristianismo de dois níveis, a Reforma abriu a porta para um naturalismo que se importa apenas com este mundo.

 Taylor descreve isso como um eclipse - um eclipse de um "propósito futuro" ou um bem que transcende o mero desenvolvimento humano. Como ele colocou em algum lugar, "para os cristãos, Deus se importa com o desenvolvimento humano, mas ‘seja feita a sua vontade’ não se reduz a 'deixe os seres humanos serem desenvolvidos'". Em suma, tanto agentes como instituições sociais viveram com um senso de que o telos fosse eterno - um julgamento final, uma visão beatífica, e por aí vai. E, para Taylor, esse "bem maior" estava com uma certa tensão com a preocupação mundana sobre desenvolvimento, o qual traz um senso de obrigação além do desenvolvimento humano. Em outras palavras, essa vida não é "tudo o que existe" - e reconhecer isso significa viver a vida de forma diferente. Isso engendra uma limitação ascética, por exemplo: não simplesmente comer, beber e se casar, porque amanhã talvez morramos. Esse não é o fim. Depois disso vem o julgamento.

 Mas Taylor vê uma importante mudança a respeito disso, também por causa da Reforma, mas, principalmente, por causa de Adam Smith e John Locke, entre outros. Enquanto, historicamente, a doutrina da providência assegura um plano final benigno para o cosmos, com Locke e Smith nós vemos uma nova ênfase: providência é primariamente sobre direcionar o mundo para benefício mútuo, benefícios econômicos, particularmente. Humanos são vistos, fundamentalmente, como engajados em trocas de serviços, então o cosmos inteiro é visto antropocentricamente como uma arena para essa economia. O que acontece com a "nova providência", então, é uma redução dos propósitos de Deus, uma “economização” dos interesses de Deus. Então, até o nosso teísmo se torna humanizado, e o telos da preocupação providencial de Deus é circunscrita na imanência. E isso se torna verdade até mesmo para o pessoal "ortodoxo": "até mesmo as pessoas que defendem as crenças ortodoxas estão influenciadas por essa troca humanizada; frequentemente a dimensão transcendental da fé se torna menos central" (A era secular, 222). Porque a eternidade está eclipsada, então este mundo está amplificado e ameaça engolir tudo.

Vendo nosso futuro nesse passado

 O que Taylor está falando equivale a um monte de história antiga para nós. Mas tenho que confessar que isso corta bem perto do osso para mim. Parece que estou revivendo essa história por toda a minha vida, e é uma história que eu vejo se repetindo na geração mais nova.

 A minha versão dessa história é uma variação "Kuyperiana". Eu me converti e alimentei em uma parte altamente dualista do evangelicalismo norte americano, com uma visão dispensacionalista robusta do fim dos tempos e uma estreita compreensão da redenção. Um lugar muito voltado para o arrebatamento, para uma piedade que pouco, ou nada, falava sobre como ou porque o cristão deve se preocupar com planejamento urbano ou engenharia química ou garantir fontes de água limpa para as nações em desenvolvimento. Por que se preocupar com justiça ou desenvolvimento de um mundo que, no final, irá ser queimado?

 Então, quando eu ouvi o evangelho kuyperiano, por assim dizer, eu fiquei tanto extasiado como um pouco bravo. Eu fui introduzido a um rico entendimento da narrativa bíblica que não só incluía o pecado e o resgate da alma, mas também a criação, o fazer cultura, um senso holístico de redenção, o qual incluía a preocupação por justiça. Eu percebi que Deus não está interessado apenas em almas imateriais; ele está redimindo tudo e renovando a criação. O trabalho de Cristo também envolve a redenção deste mundo. A boa notícia não é um anúncio de uma saída para as nossas almas, mas a invasão do shalom.

 Você provavelmente irá dizer que eu finalmente recebi um entendimento sobre o cristianismo que me "devolveu este mundo". De novo, em termos kuyperianos, aqui foi dada uma explicação sobre uma história bíblica que não apenas enfatiza a igreja como instituição (a igreja "igrejada"), mas, também, a igreja como organismo (cristãos engajados na criação cultural, no cuidado e na justiça). Porque eu me senti mais robusto, a compreensão abrangente do evangelho foi mantida em segredo, eu guardei uma espécie de tristeza e ressentimento contra a minha formação fundamentalista. Tendo recebido o mundo de volta, eu quase fiquei bravo com os meus professores por terem enfatizado somente no céu.

 Como resultado, minha conversão kuyperiana à justiça e ao fazer cultura "deste mundo" começaram a me empurrar ao seu próprio tipo de imanência. Em outras palavras, como Taylor percebeu nas mudanças da modernidade, até os crentes, em nome de afirmar "este mundo", podem, sem querer, terminar se entregando a um imaginário social que apenas valoriza este mundo. Nós nos tornarmos encobertos e fechados em nossas próprias afirmações sobre "uma criação boa", a qual, em vez de ser o teatro da Glória de Deus, acaba por ser o eco dos nossos próprios interesses. Para resumir, eu me tornei o mais estranho tipo de monstro: um secularista kuyperiano. Minha afirmação reformada da criação foi em direção a um naturalismo funcional. Minha devoção ao shalom se tornou indistinguível das plataformas políticas do partido progressista. E a minha valorização da igreja como um organismo se tornou em uma difamação da igreja como instituição.

 Claro, isso não é mesmo "kuyperiano". Isso é mais um pedaço de Kuyper, um lado do Pai Abraão. Era uma apropriação selecionada, como se a preocupação com o shalom pudesse ser separada da ressurreição de Jesus, que subjulga os principados e potestades; como se o fazer cultura pudesse ser desassociado da santificação e da formação litúrgica; como se a visão bíblica de justiça pudesse ser desatada da justificação pela fé. Rich Mouw já mostrou, em seu maravilhoso livreto - Abraham Kuyper: A Short and Personal Introduction -, todas   essa associações em Kuyper. Somos nós quem separamos e distorcemos isso em um secularismo funcional.

 Mas, mesmo que você saiba nada sobre Abraham Kuyper, muitos fariam bem em considerar como buscamos a justiça. Quando nós "naturalizamos" o shalom, este deixa de ser shalom. A Nova Jerusalém não é um produto dos nossos esforços, como se ela fosse construída por nós. A Nova Jerusalém desce do céu (Apocalipse 21:2, 10). E a luz da cidade santa não é uma realização natural, mas é a luz irradiada da glória do Ressurreto, o Cordeiro (Apocalipse 21:22-25).

 A afirmação holística da boa criação e da importância da justiça "neste mundo" não são substitutos do céu, como se o evangelho holístico fosse um caminho santificado para aprender a ser um naturalista. Ao contrário, é a transcendência de Deus - na assunção do Filho, que agora reina do céu, e no reino vindouro pelo qual nós oramos - que disciplina e rompe e assombra a nossa tendência de querermos nos contentar com "este mundo". É o chamado do Filho, que está no céu, e a visão da Nova Jerusalém descendo que empurra para trás a nossa ilusão de que nós podemos resolver tudo sozinhos. Shalom não é uma linguagem bíblica para melhorar progressismo social. Shalom é um chamado de Cristo para que esperemos a vinda do reino.  

Vejo o livro de James K.A. Smith Cartas a um jovem calvinista aqui

O livro Como (não) ser secular, de James K.A. Smith, será publicado pela Editora Monergismo em 2018.

Veja também o livro Em toda a extensão do cosmos, de Abraham Kuyper

Tradução: Victor Bimbato

Fonte: http://www.cardus.ca/comment/article/3993/naturalizing-shalom-confessions-of-a-kuyperian-secularist/


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